Adestrando cachorros

Nesse dias a minha irmã está cuidando do cachorro do nosso vizinho, sem trocadilhos ou ofensas. Ele é educado, gentil e amável. Também foi adestrado e sabe cumprir o que é pedido. O cachorro e não o dono. O interessante nessa história é que a minha irmã adora o cachorro, já que ele é educado e etc., etc. No entanto, isso me remete a algo que parece inato a todos os brasileiros – menos alguns bocados, espero.

Todos os brasileiros querem um cachorro já pronto, já adestrado. E não é uma frase aplicada somente a esses mamíferos de quatro patas, mas a diversas outras situações. Todos têm um amigo que fala que quer ganhar muito dinheiro até os trinta para curtir a vida. Ou que quer estar aposentado aos quarenta. Ou que gostaria de ter as regalias dos outros. Se você não tem um amigo assim, talvez você seja esse amigo.

O importante é que todos querem ter os cachorros prontos, adestrados. Raras exceções são aquelas em que o suposto amigo fala que quer trabalhar. Mas no geral, os brasileiros não querem subir um degrau, mas toda a escadaria. O problema é que geralmente ninguém consegue essa façanha – pelo menos não pelos meios lícitos. E daí vem a decepção, a decepção de não conseguir esse sonho, que no início já era difícil, agora impossível. E dessa decepção vem o eterno problema brasileiro, o seu jeitinho.

O jeitinho brasileiro é como o brasileiro reage quando ninguém, ou quase ninguém, está olhando. Afinal, quem sabe furar fila melhor que o brasileiro. Olha pra um lado, depois o outro e quando vê, é o segundo da fila. Talvez daí venha os nossos melhores dribles do futebol. Somos um país de dissimulados. Fingimos não ver a calhordice do próximo para que possamos praticar a nossa própria malandragem sem medos. Todos os escândalos apontam os piores seres humanos que os brasileiros conhecem: os políticos. No entanto, se fosse feita uma pesquisa, 90% do país gostaria de estar no lugar de um deles. Não os que estão na prisão, mas os que estão felizes em não trabalharem mais do que 16 horas semanais, terem auxílio-combustível e auxílio-táxi, entre outros auxílios que não fazem sentido, e terem as maiores férias dentre os servidores públicos.

Isso só demonstra uma coisa entre os brasileiros. Queremos o cachorro pronto, adestrado. Afinal, quem quer gastar parte da sua vida tentando adestrar o próprio cachorro? Peguemos o cachorro, os sonhos e, por que não, as realizações do vizinho para nós mesmo e deixemos o nosso cachorro pra lá. Até porque a grama do vizinho é sempre mais verde.

Fernando Araujo Hofmeister
Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2008

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