Ditadura das Quatro Rodas

Por Marcelo (O Globo)

Outro dia, dois amigos vieram andando a pé, à noite, da altura do Posto 4, em Copacabana, até o Posto 9, em Ipanema. Percorreram uns quatro ou cinco quilômetros conversando, olhando a paisagem, sem cansaço e sem medo. Só fizeram isso porque não são daqui, são de Porto Alegre. O carioca já foi definido como o ser urbano que pega o carro, anda uns mil metros, demora a estacionar, desce e então caminha dois, três quilômetros no calçadão. Não lhe passa pela cabeça aproveitar o trajeto de sua casa até a praia para se exercitar. Não que ele seja sedentário ou ocioso; até que se agita muito, é aerobiótico. Basta observá-lo numa manhã de sol ao ar livre, mexendo braços e pernas, fazendo exercícios, correndo.

O que ele não sabe mais é flanar, um verbo que, se não foi inventado pelos franceses, é certamente sua especialidade. O que é flanar? Pergunta João do Rio, nosso cronista maior do início do século passado e um grande “flaneur” pela “alma encantadora das ruas”. Ele mesmo responde: “Flanar é ser vagabundo e refletir, é perambular com inteligência, é ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite”. Sei que há várias alegações para não se fazer mais isso, como a insegurança da cidade. Mas o verdadeiro vilão é o automóvel, com toda a cultura que o acompanha e que dela nos faz dependentes: o culto da velocidade, a obsessão de ultrapassar, a pressa de chegar. O engraçado é que no dia-a-dia cada vez mais se obtém o efeito contrário: a lentidão dos engarrafamentos, a demora, o estresse. Sem falar que os acidentes transformaram o automóvel num dos principais instrumentos de morte nas grandes cidades brasileiras.

Por isso é que uma notícia como a dessa semana deveria acender um sinal vermelho junto ao governo. Se o Rio ganha 5.500 carros novos por mês, se há um automóvel para cada três habitantes, se a nossa frota já é de 2 milhões de veículos e se nada se faz para compensar essa explosão nem novas vias, nem medidas de ordenação do caos _ pode-se prever o que nos espera para breve. São Paulo instituiu o rodízio, outras cidades investiram em transporte público e criaram o pedágio urbano, Paris, Amsterdam, Barcelona, Bogotá, entre outras, adotaram a bicicleta como solução alternativa. O Rio parece que se rendeu mesmo à ditadura das quatro rodas.

Existe uma idéia, bem radical, que tem muitos adeptos, inclusive o ex-prefeito Luiz Paulo Conde, que chegou a lançá-la, mas não a levou adiante: implodir o viaduto sobre a Praça 15. Isso mesmo. Bum! E assim comemoraríamos os 200 anos da chegada da família real ao Brasil. A medida de saneamento urbano não só devolveria à cidade um de seus espaços mais bonitos, como seria o marco simbólico de uma nova era. Serviria para mostrar ao mundo que no Rio, daqui pra frente, o pedestre vale mais do que o automóvel.

Por Zuenir Ventura. Extraído do jornal O Globo, coluna Zuenir Ventura do dia 09/09/2007.

Anúncios

2 Respostas para “Ditadura das Quatro Rodas

  1. Pedro Henrique Sapha

    sensacional.

  2. Felipe Augusto

    Boa,

    bela estréia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s