Vida

Peguei-me um dia pesando na minha vida, que apesar de ruim amorosamente era considerada um boa vida. Logo comecei a pensar sobre esses buracos nessa estrada e comecei a refletir sobre tudo que pode ou possa vir a acontecer. Cheguei a uma conclusão geral, apesar de haverem exceções na vida de cada um.

Quando nascemos, vivemos uma vida bem idade das cavernas. Cada olhar nos cria dúvida, cada cheiro uma surpresa. Não temos muita capacidade de entender os porquês, assim como os homens pré-históricos, consideramos nossas alimentações e limpezas como a chuva: são atos divinos.

Pouco depois descobrimos um poder, a fala. Essa ferramenta será o nosso fogo. Abrirá caminhos dos quais podemos até nos arrepender. Portanto aprendemos a nossa primeira lição: as palavras podem magoar e ferir.

Até os nossos uns 5 anos, vivemos uma vida bem ao estilo de plebeu do Absolutismo. Fazemos apenas o que o Rei (os pais) querem. Quem sai disso tem castigo garantido.

A partir dos 8 ou 9 anos, temos uma vida bem mais comunista. O Estado, nossos pais, nos mantém e nós damos nossa força de trabalho, o estudo obrigatório, em troca.

Aos 12 anos, aproximadamente, a casa cai. Pensamos pela primeira vez em algo que envolve um ser humano fisicamente diferente. Pensamos na paixão. Não aquela paixão de criança pela professora, mas sim a paixão por alguém de sua idade. Como nunca encaramos isso, temos a grande tendência de ignorar e guardar para si.

No primeiro beijo tudo se vai. Era apenas um hormônio que fazia sentir aquilo tudo. Bem que alguém podia avisar, pelo menos escolheríamos melhor uma pessoa para dar o primeiro beijo. Mas isso fica apenas como nota mental, pois sempre acontece. Depois de cada desilusão “amorosa”, seja ela qual for, sempre nos apaixonamos por alguém. Quem não se apaixonou, só conta conversa de salão, pois é difícil não conviver com uma pessoa legal o suficiente para ter uma paixão.

No primeiro(a) namorado(a) talvez seja pior, já que às vezes, ou quase sempre, um gosta mais que o outro, ou um se importa mais que o outro. E esse outro não quer abrir mão para ficar com quem gosta dele. Mas gostar é isso. É abrir mão. Quem nunca se desdobrou por um amigo querido, ou nunca deixou de dizer coisas pelas amizades.

Já aos 15 anos, começamos a dosar o sistemas comunistas e capitalista. Ainda somos um fruto do Estado, mas passamos a decidir pequenos assuntos. E cada decisão pode levar a crises e guerras. Cada guerra um vencedor e um perdedor. E mais uma vez nos arrependemos de termos participado dela.

Quando passa a morar sozinho, é o marco principal da sua passagem completa para o capitalismo. Você tem poder de tudo, o que vale é a balança (seja qual for, amorosa, comercial, ou outra qualquer) estar favorável. E você pode viver sozinho mas financiados por outros Estados, como seus pais, e passa a fazer novas transações por sua responsabilidade, como comprar aquele CD do AC/DC que você sempre quis, mas ninguém te deu.

Não atrevo a botar que casamento é voltar para um sistema mais parlamentar, mas é. Vale as regras do capitalismo, mas com a aprovação do parlamento, o casal.

E quando estamos prestes a morrer, depois de ter tido, ou não, filhos, netos, bisnetos, somos fadados a viver em um mundo sem crises, sem guerras, sem decepções, sem gostar, sem fogo, sem aprovar. Vimos durante vários verões que não gostamos das crises, mas sem os buracos, a estrada não passa de apenas mais uma estrada.

Fernando Araujo Hofmeister
Rio, 15-11-2003

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s